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terça-feira, 25 de maio de 2010

A estupidez dos vencedores

Artigo de Opinião
Por: Anabela Melão

Barbara Tuchman escreveu um memorável livro sobre a estupidez dos governantes. Parece que o poder torna as pessoas estúpidas e que muito poder, então, as deixa estupidíssimas. Os mais estúpidos serão provavelmente os grandes vencedores. Basta triunfarem e a sua inteligência já não consegue estimular-se senão com a perspectiva da próxima vitória. Permanecer inteligente, depois de já se ser um vencedor, é um paradoxo. Se venceu aquele homenzinho, como querem que se lhe reconheça alguma credibilidade, se foi, precisamente, porque a destruiu, a modificou, a alterou, e a deturpou, que “não ficou pedra sobre pedra que não fosse derrubada”.

O capitalismo é uma grandessíssima besta. O Ocidente não teve a capacidade crítica necessária para entender a sua vitória sobre o socialismo do Leste e do Sul. Impôs-se-lhe o modelo de sua hegemonia, a ideologia do mercado total, como uma panaceia para todos os males. E tão bom que era que tentou exportá-la a todo custo para as regiões da crise global.

No início dos anos 80, baixas taxas de crescimento e recessões, um novo desemprego de grandes massas e excessivas dívidas públicas levaram à ruptura do paradigma político-económico. Em meados dos anos 80, tornou-se aguda a latente "crise em nível baixo" na União Soviética, em sua periferia e em muitos países do Terceiro Mundo. Vai de se tentar reimplementar uma nova orientação – como ? - mediante "mais economia de mercado". No final dos anos 80, foi o armagedom dos sistemas socialistas; noutras partes do mundo, veio uma onda de guerras civis, formas de uma "economia saqueadora", e o domínio crescente de gangues criminosas. Sob a impressão do colapso da União Soviética, continuou ao mesmo tempo o triunfo do neoliberalismo económico.

O panorama dos últimos anos permite constatar: uma crise global que atravessa os sistemas e um novo surto desta crise aumentada a dose do remédio neoliberal. Que efeito teve este remédio? Onde estão os êxitos do neoliberalismo? Nem um único dos fenómenos que, no começo dos anos 80, conduziram, nos países ocidentais, à mudança para o monetarismo, acabou. Pioraram todos os fatores da crise daquela época. As reais taxas de crescimento do mundo ocidental, outro aparente paradoxo, foram as mais baixas na era neoliberal. Os auges da conjuntura foram diminuindo em cada ciclo, lembrando a respiração de um moribundo.

Mal a estupidez dos vencedores (do Ocidente) afirmava ter acabado como o socialismo, deita-se ele ao chão, no início dos anos 90, na mais profunda recessão desde a Segunda Guerra Mundial. Os "modelos com êxito" do neoliberalismo revelam-se como pura enganação. Os mercados crescentes da Ásia baseiam-se numa estratégia de industrialização para a exportação, mas o seu êxito não resulta da conta do neoliberalismo, porque se desenvolveram em oposição à doutrina monetarista, com forte apoio do Estado e sob o controle deste.

E nem tudo o que luz é oiro na Ásia. O Japão, “o país dos milagres”, percebeu desde 1992, os "limites do crescimento", do mesmo modo que os perceberam o Ocidente. Apesar de o governo japonês lançar um programa de emergência e de estímulo após o outro, os setores centrais da economia estagnaram, diminuíram as exportações e a produção industrial. No começo de 1995, o desemprego alcançou o nível mais alto dos últimos 42 anos. A expansão japonesa tinha que chegar a um fim, porque entretanto perdera a sua força, o seu "efeito da base". É uma lógica elementar que uma base, tanto absoluta quanto relativamente baixa, no "momento de partida ", de uma expansão económica, permite inicialmente altas taxas de crescimento, que vão decrescendo rapidamente, porque aumenta exponencialmente o custo dos investimentos, enquanto diminuem relativamente os resultados.

O mesmo aplica-se aos discípulos exemplares do neoliberalismo na América Latina. Os sucessos do México, do Chile e da Argentina, possuem muito menos substância do que a ascensão na Ásia. No início de 1995, o milagre económico mexicano esvaiu-se em fumaça. Como noutros países latino-americanos, um câmbio artificialmente elevado, em relação ao dólar, criou a impressão de estabilidade. A redução do déficit público e da inflação somente foi possível pelo preço de um déficit na balança de importação e exportação de bens e serviços. Quando já não podia ser garantida a conversibilidade em dólares da massa crescente de tesobonds, pela saída de reservas monetárias, tudo se desmoronou.

Os êxitos de exportação dos três tigres de papel latinoamericanos não são de qualidade asiática. No México, existem "indústrias de montagem" norte-americanas e japonesas, sem base industrial própria. A Argentina saneia o seu orçamento público, desbarata as empresas estatais e deixa morrer de fome os idosos. Mas a que fim conduz uma política deste tipo? Como recompensa, entra capital estrangeiro, que quase tão somente serve fins especulativos menos do que investimentos reais na indústria. O Chile não põe de pé uma indústria leve de produtos acabados com capacidade de exportação duradoura, como a Coréia do Sul nos anos 70, porque a sua indústria têxtil e de couro encontra-se em crise devido à forte concorrência internacional. A exportação não vive de carros, televisores em cores e microchips ou software, senão que depende, em alto grau, da mineração de cobre. Os verdadeiros êxitos da exportação, que pressupõem todos eles uma exploração exaustiva das reservas naturais, reduzem-se a matérias-primas agrárias, madeira e celulose, frutas, farinha de peixe e frutos do mar.

O modelo liberal na América Latina não passa de uma ilusão estatística. As altas taxas de crescimento referem-se a um ponto de partida que foi o resultado da "década perdida" e de uma desindustrialização brutal. Há "êxitos" quando os dados estatísticos não procedem do período anterior a 1988 ou, no máximo, 1985. Considerando-se um período mais extenso, não há êxito nenhum, senão apenas estagnação, porque, na menos negra das hipóteses, o crescimento compensou as perdas dos anos 80, e este "efeito da base secundário" dá sintomas de esgotamento.

Maior ainda é a enganação estatística na Europa Oriental. Mesmo nos países de exibição do neoliberalismo, a Polónia, a Hungria e a República Tcheca, as reformas fizeram recuar em até 40% desde 1989 a produção das indústrias transformadoras. O crescimento aparentemente alto, tido, desde 1993-94, como "a grande mudança", reporta-se ao novo ponto de partida depois de um surto de desindustrialização. Na Rússia, onde já quase durante uma década a economia de mercado é idolatrada, a produção industrial diminuiu desde 1989 em mais de 50%. E na Roménia, depois das primeiras reformas, a miséria da população cresceu inimaginavelmente.

Para quê citar África?

O balanço global do neoliberalismo e das reformas revela uma única catástrofe. Alguém disse que o socialismo era uma idéia nobre, porém, não feito para o homem real. A economia de mercado globalizada nem chega a ser uma idéia nobre. Não funciona e não é nem um pouco rentável para a grande maioria. A era neoliberal não durará tanto tempo quanto a era do socialismo e do keynesianismo. O neoliberalismo nada mais foi que a ideologia de moda conveniente para a estupidez dos vencedores, num momento histórico de susto. Evidentemente, também não há volta à antiga economia estatal. A humanidade ainda não se consciencializou que, com o fim de uma época, ficaram obsoletos os dois lados do antigo conflito e que ela precisa inventar algo fundamentalmente novo!

Mais do mesmo não!

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